segunda-feira, junho 23, 2008

Um momento sob o céu estrelado

"Olha os olhos de cristal!"
Aqueles olhinhos diziam:
"São olhos de cristal. Lindos!"
"Olhos de água", eu expliquei.
Era tão pequeno e estava fascinado, criança que era.
"Pegue para mim um deles", pediu.
Não quis negar.
Estendi o braço para a imensidão
E com a ponta de meus dedos
Apanhei um deles, cintilava.
Nossos pés estavam mornos próximos às chamas.
"Tente você também"
"Está bem"
Seus pequeninos dedos então apertavam
O cristal cintilante de água luminescente.
"Repare"
O rompimento do cristal fez escorrer
Sua água pura
Bem no meio de sua testa,
Nariz abaixo.
Então ele adormeceu.
Eu protegia-o.



João Miguel
Junho/08

Ainda bem que não sou um espelho

Afinal, não há final.
Dizem que sou um quadro virado contra a parede,
Antes fosse eu um espelho.
Meus rins sem cor sobem talvez
Até a nuca de Rimbaud,
Ou algum outro devaneio qualquer
Diriam que é Flaubert.
Outros (que horror!), diriam Rosseau.
Para eles sou um quadro virado contra a parede,
Mas isso não importa a eles, são gente.
Eu aqui tenho o parque de diversões do espírito,
A esbórnia da alma em profanação de sentidos,
Que berra em todos os canais auditivos,
Afinal, não há final.

Agrura

O amargo
Amargo.
Amargo.
O aspargo amargo.
O amargo do universo.
O aspargo do universo.
Universo amargo.
Largo amargo:
Largo universo.
Aspargo.
"O amargo largo do universo,
largo aspargo".
Aspargo amargo.
Largo aspargo do universo.



João Miguel

Junho/08

Um dia acordei do avesso

Um belo dia acordei do avesso.
Meus olhos possuiam um brilho claro
E quando despertei, todos eles mergulharam num profundo breu.
Os sons da janela semi-aberta, a cortina aquecida pelo sol negro
E a eterna penumbra do meu quarto
Açoitaram meu coração e sentidos.
Ao cair de cara no chão cai de costas em flajelos de ferrões.
Mas o que é a dor quando não se enxerga a chaga?
De fato não me incomodavam os lampejos prateados
De meus sonhos falecidos.
Naquela escuridão, os clarões atingiam meu rosto como uma chuva de nuvens.
Quantas vezes, quantas frases longas que loucura nem delírio alcançam.
Podemos nós, quando tudo e nada fundem-se num profundo galho de brisa,
Podemos acordar como se tivessemos enfiado a cabeça no antônimo lado das coisas?
Frases longas.
Melhor encarar os fatos.
Um banho frio me faria bem.

João Miguel
Junho/08

Navegação

Sinto o barco
Brisa a água gira
Espalham-se no chão do quarto
Ouço o ar que o som me trás, que cedo avisa:
Já morreu a melancolia.
"Já foi tarde"
O ar reclama.
"Que volte logo"
Diz a cama.
O vento sopra-me à tona.
Sigo à proa
Um lago de lama.
Piso, esmago minha gargalhada
Grito o alto canto da estrada.



João Miguel
Junho/08

domingo, junho 15, 2008

Poema de Nove Segundos

1º Segundo

Hoje comemoro a solidão de minha existência.
Não somente para saudar minha paz de momento que insisto em afirmar,
Mas cá sentado sobre o verde retorcido destas veredas em forma de arquipélago,
Sinto a cárie amarga que desatina sensualmente em deuses pardos de certeza.

2º Segundo

Os ecos de Rimbaud e harpas de cobre ácido, daqueles que escorrem e recobrem Mallarmé,
Brilham em meus pés de raizes que sugam o chão. Então O interior de minhas dimensões terrenas e arenosas vê. Dissimula o instante, a estante, o restante, a razão de Kant, o peso obliviante da vigília.

3º Segundo

Como a dor de uma agulha, e então, imensamente integrado, venho Eu cá sentar-me,
Sobre esta paisagem musga, além de quantativamente poética, Para assim berrar à brisa
Que sobre meu rosto plácido desliza.

4º Segundo

Como que neve flamejante em torturas de ópio e verrugas repletas de castas, É pleno como quando respirávamos os segundos do amor de Nefertite. O por da tarde de amor trancado e úmido em nossas palpebras, sob o nascer do sol carnívoro, Iluminado por uma espiral corrente e tênue que une minha alma ao ar da manhã, assim como esta amplidão de giz e cobertores
que, durante meio período, encobre todas as indulgências sobre as quais depositamos o que desejamos:
O primeiro segundo após a morte.

5º Segundo

Vomito esse desejo que arranha as paredes do meu fígado e rebentam em constelações de magníficas explosões dizimatórias. Estas arrancam vêias e corações dos astros suspensos diante de meus ombros, como se este cenário fosse a realidade digerida nas entranhas das cabras e rãs do entardecer.

6º Segundo

A árvore transversal está mais perto de minhas costas transparentes do que a Lua gigantesca de fermento e moléstias, comprimida ao centro.
Calado e sustentado por pulmões negros bufando névoas e uma pasta escura e apodrecida, de um vício cravado no centro de meu peito (assim como a Lua), como uma orquídea de diamante sustenta o solo.

7º Segundo

O solo. Enigmático. Ele agarra seu caule e suplica por mais uma dose de esperança.
A esperança daquelas negras pastilhas de anfetaminóides nanosintetizados projetados em rasas docas de abssinto com mercúrio e pitadas de trovão e contraceptivos.

8º Segundo

E vertigem? Ou seria fuligem? Tampouco derretem. Onde sera que está a origem?

9º Segundo

Hoje esmaguei meu corpo contra a parede com o dedo indicador e tudo, e nada também,
Diz a meus desdobramentos que meu momento de paz é a celebração da solidão de minha existência.


João Miguel

segunda-feira, abril 14, 2008

Cor

Aquela tarde úmida e nascente soletrava meus passos de pensamento.
Cravei dois seixos em minha pele, naquelas nuvens de momento.
Giravam flores e saias frutíferas, como num imenso e novo carnaval.
Rodei mil vezes em meus sonos mornos, como quem espanta o mal.

Minha vila tinha céu azul e sol de espinhos flamejantes
Qualquer um que me visse caído em cama, não perturbariam-me o instante.
E qual dessas rosas sonho, senão aquela que me pariu o filho?
Penso que somente sopro minha vida, assim como dela faço meu caminho.

De minh`alma colhe o que já apodreceu nos galhos
Certo que não peço nada, nada além de seus frios calvários.
Logo a tenda de meus olhos abre-se numa nova paixão
Saciam sua sede com orvalho e cantam soltas na amplidão.

Não entendo essa gente que me duvida a longa palavra
Sempre têm que ultrapassar sua mente, como se fosse escrava?
Não lhes rogo mal infortúnios, nem lhes desejo sua ausência.
Breve de espanto e resguardado, sugo-lhes apenas a essência.

Tenho frios e pontiagudos dedos, que é para acalmar-me o pranto.
E quando, muita vez, me quedo externo de ser eu... Apenas canto.
Minha margem fulgura minha dormente dor de amante
Olha, pois, pega em tuas mãos depois, sofre logo a dor de adiante!

quarta-feira, março 26, 2008

Noite

As paredes do estandarte solitário e legionário
São cristalinas minas de pedra-corvo.
Refletem suor e o negrume dos figos estomacais
Em transeuntes acidos e mesquinhos.

Consomem gotas de ódio e álcool
Que entorpecem vis sentidos
Favos de plumas podres, petrificadas
Que dissolvem o sal de seus organismos.

Calotas emborrachadas
Sob o negro véu risonho
Flores do mal em alvos cabelos
Tudo é estante para meu tom de estanho.

Prosas são fim de mim, então trovas.
Libertas vertem berros, querem de perto ser remotas.
Amordaçadas.
Debruçadas em balões estéreis e tristes...
Eu choro, não suporto. Meu sabor apuro.
Água plena de fruto maduro é
Sangue seco de meu cais impuro.

Más revelações vem do fundo: imundo.
Mas esta lua amarela morta
Insiste em sua sequela à minha porta.
Transparente e profundo céu da noite
Onde nada mais importa.

terça-feira, março 11, 2008

Um encontro

Na esquina da poesia
Encontrei a neve de teu sorriso
Saiba que sorri com tua melodia
Que surpresa, teus olhares agora recito.

Sorri contigo, e sem ti quando sozinho
Me encanta seres livre e novidade
Nego, cem vezes ou mais espinhos
Agora pouco me importa tua idade

Meu sonho, disse o arco de teu abraço
Mesmo era que tal noite vivida
Acordei salvo, e num encalço
Adormeci sob tua chama infinita

Por dentro, sob um vento cortante
O pálio negro esvaia-se clemente
Seu furor era razante. E este verso inocente
Marcou à brasa aquele riso instante:
Cálida manhã ardente.

sábado, março 01, 2008

João e Maria

E João recordou:

- Lembro de meus tempos de juventude, sabes Maria. Me interesso profundamente em penetrar no passado e sair em busca de algum sopro de felicidade.

Maria complementou:
- Menina era eu quando pensava que viveria para ver os grandes ventos de alegria da alma. É de me cortar as esperanças pensar que a vida foi esperando, esperando, tocando em frente o tempo, arrastando seu corpo, e que bons tempos como aqueles morreram.

João mostrou os dentes bondosamente:
- Você continua linda para meus olhos. Para minha alma, sua beleza só aumentou.

Maria dá uma gargalhada fraca, porém divertida:
- E você continua o mesmo galanteador de sempre. Sábio domador de meus amores que tu és.

João pega a mão dela com as suas:
- Que seriam todos esses anos se minha vida, sozinha estivesse sem a tua, minha mulher.

Maria derrama uma lágrima:
- Vida como essa nunca poderá existir. Pois amo-te com o calor de minha própria vida. Estou velha, mas feliz.

João inspira:
- As vezes lamento não poder ser tão belo e esbelto, como tu costumava apreciar.

Maria:
- Ah João, em meu coração tua beleza juvenil sempre há de viver. Tua beleza é tua experiência. Acho-te belo, meu marido.

João ri baixinho e cora:
- Estou apenas logrando. Sou feliz ao teu lado, tú és o refúgio de toda minha alegria, tú és a dona de minhas felicidades passadas.

Maria fecha os olhos e encosta a cabeça no ombro dele:
- E agora?

João cala por alguns minutos, e se adianta:
- Sabes que a hora está cada vez mais próxima.

Maria franze a testa:
- As vezes penso que talvez não esteja pronta.

João:
- Bom, suponho que nunca ninguém ha de se estar.

Maria:
- Agora que o momento está perto, sinto-me um pouco amedrontada. Estamos velhos, João.

João olha em seus olhos:
- Também compartilho de tua dor. Mas não te procupes, estamos juntos. Temos um ao outro, como um cais do porto. Como sempre estivemos em vida.

Maria sorri, olha para o lado oposto, e retorna ao olhar de João:
- Amo-te com todo meu corpo, minha mente. Sabes que agora começo a notar-te integrado a mim, como uma extensão de mim mesma. Sinto-me unida a ti, como meus membros são unidos a meu tronco.

João beija a testa de Maria:
- Tua presença estará sempre aqui dentro. Agora e sempre, para além de meu tempo.

Maria:
- Sabes, sinto que minha hora se aproxima.

João:
- Então morreremos juntos, como uma única vida que se encerra.

E abraçaram-se eternamente.