quarta-feira, março 26, 2008

Noite

As paredes do estandarte solitário e legionário
São cristalinas minas de pedra-corvo.
Refletem suor e o negrume dos figos estomacais
Em transeuntes acidos e mesquinhos.

Consomem gotas de ódio e álcool
Que entorpecem vis sentidos
Favos de plumas podres, petrificadas
Que dissolvem o sal de seus organismos.

Calotas emborrachadas
Sob o negro véu risonho
Flores do mal em alvos cabelos
Tudo é estante para meu tom de estanho.

Prosas são fim de mim, então trovas.
Libertas vertem berros, querem de perto ser remotas.
Amordaçadas.
Debruçadas em balões estéreis e tristes...
Eu choro, não suporto. Meu sabor apuro.
Água plena de fruto maduro é
Sangue seco de meu cais impuro.

Más revelações vem do fundo: imundo.
Mas esta lua amarela morta
Insiste em sua sequela à minha porta.
Transparente e profundo céu da noite
Onde nada mais importa.

terça-feira, março 11, 2008

Um encontro

Na esquina da poesia
Encontrei a neve de teu sorriso
Saiba que sorri com tua melodia
Que surpresa, teus olhares agora recito.

Sorri contigo, e sem ti quando sozinho
Me encanta seres livre e novidade
Nego, cem vezes ou mais espinhos
Agora pouco me importa tua idade

Meu sonho, disse o arco de teu abraço
Mesmo era que tal noite vivida
Acordei salvo, e num encalço
Adormeci sob tua chama infinita

Por dentro, sob um vento cortante
O pálio negro esvaia-se clemente
Seu furor era razante. E este verso inocente
Marcou à brasa aquele riso instante:
Cálida manhã ardente.

sábado, março 01, 2008

João e Maria

E João recordou:

- Lembro de meus tempos de juventude, sabes Maria. Me interesso profundamente em penetrar no passado e sair em busca de algum sopro de felicidade.

Maria complementou:
- Menina era eu quando pensava que viveria para ver os grandes ventos de alegria da alma. É de me cortar as esperanças pensar que a vida foi esperando, esperando, tocando em frente o tempo, arrastando seu corpo, e que bons tempos como aqueles morreram.

João mostrou os dentes bondosamente:
- Você continua linda para meus olhos. Para minha alma, sua beleza só aumentou.

Maria dá uma gargalhada fraca, porém divertida:
- E você continua o mesmo galanteador de sempre. Sábio domador de meus amores que tu és.

João pega a mão dela com as suas:
- Que seriam todos esses anos se minha vida, sozinha estivesse sem a tua, minha mulher.

Maria derrama uma lágrima:
- Vida como essa nunca poderá existir. Pois amo-te com o calor de minha própria vida. Estou velha, mas feliz.

João inspira:
- As vezes lamento não poder ser tão belo e esbelto, como tu costumava apreciar.

Maria:
- Ah João, em meu coração tua beleza juvenil sempre há de viver. Tua beleza é tua experiência. Acho-te belo, meu marido.

João ri baixinho e cora:
- Estou apenas logrando. Sou feliz ao teu lado, tú és o refúgio de toda minha alegria, tú és a dona de minhas felicidades passadas.

Maria fecha os olhos e encosta a cabeça no ombro dele:
- E agora?

João cala por alguns minutos, e se adianta:
- Sabes que a hora está cada vez mais próxima.

Maria franze a testa:
- As vezes penso que talvez não esteja pronta.

João:
- Bom, suponho que nunca ninguém ha de se estar.

Maria:
- Agora que o momento está perto, sinto-me um pouco amedrontada. Estamos velhos, João.

João olha em seus olhos:
- Também compartilho de tua dor. Mas não te procupes, estamos juntos. Temos um ao outro, como um cais do porto. Como sempre estivemos em vida.

Maria sorri, olha para o lado oposto, e retorna ao olhar de João:
- Amo-te com todo meu corpo, minha mente. Sabes que agora começo a notar-te integrado a mim, como uma extensão de mim mesma. Sinto-me unida a ti, como meus membros são unidos a meu tronco.

João beija a testa de Maria:
- Tua presença estará sempre aqui dentro. Agora e sempre, para além de meu tempo.

Maria:
- Sabes, sinto que minha hora se aproxima.

João:
- Então morreremos juntos, como uma única vida que se encerra.

E abraçaram-se eternamente.